“Deu meia noite
É na dança do jongo
Que eu vou”
É na dança do jongo
Que eu vou”
È dia 13 de maio, o repicar do candongueiro atravessa os vales, avisando aos jongueiros das fazendas distantes que é noite de jongo. Os negros montam uma fogueira e ilumina todo o terreiro com tochas. Enquanto isso, está sendo armada uma barraca de bambu para os pagodes e arrasta-pé ,onde casais dançam ao som de sanfona de oito baixos e pandeiro.
O relógio marca meia-noite, a negra mais idosa interrompe a dança e caminha para o centro do terreiro de terra batida. È plantada uma muda de bananeira. A fogueira é ascendida para manter o corpo e a alma aquecida, a mensagem é transportada pro além através da fumaça. Forma-se a roda, a idosa se benze nos tambores sagrados, com a licença dos preto-velhos e antigos jongueiros inicia-se o jogo.
Ela improvisa um verso e canta, a resposta vem alta acompanhada com bate-palmas. Os sons dos tambores se misturam, o tambu toca e o candogueiro responde, acompanhado pela Puíta, a nossa tão conhecida cuíca artesanal; ouve-se sons de um chocalho, o Guaiá, feito de folhas-de-flandes ou latas usadas.
O primeiro casal se dirige ao centro da roda, ela com um saião estampado, ele com calça branca na altura da canela. Começou a dança, a roda se movimenta em sentido anti-horário, em determinado momento ela para e os casais se alternam entre em si, um passo pra frente, um passo pra trás, o giro e umbigada. No meio o solista tira o ponto e os outros lateralmente respondem batendo palmas ritmadas enquanto dançam.
O Jongueiro de vista-forte percebe a aproximação de um antigo falecido que vem para relembrar o tempo em que dançava o jongo. A bananeira plantada cresce inexplicavelmente, e seus frutos distribuídos para os presentes. Em certo momento, alguns percebem a aproximação do senhor de engenho e trata de avisar os outros através do ponto:
Ei campo quimô
Piquira tá curiando
Piquira tá curiando, é”
Piquira tá curiando
Piquira tá curiando, é”
Segue a noite e o sereno molha o couro do tambor tornando-se o som quase que imperceptível, esta na hora de convocar o poder do fogo que é utilizado para a afinação dos instrumentos. O jongo vai até o sol raiar, é quando todos cantam pra saudar o amanhecer.
“Vamo simbora,
vamo simbora
A coroa do rei alumiô”
vamo simbora
A coroa do rei alumiô”
O jongo ou caxambu teve suas origens na região africana Congo-Angola. Chegou ao Brasil com os negros de origem bantu trazidos como escravos para trabalhar nas fazendas de café do Vale Paraíba. É uma dança dos ancestrais, dos pretos-velhos escravos, do povo do cativeiro, e por isso pertence à “linha das almas”.
Para acalmar a revolta e o sofrimento dos escravos, o senhores permitiam que os negros dançassem o jongo. Uma dança profana para o divertimento e com alto teor religioso. Geralmente os jovens ficavam de fora, os antigos exgiam muita dedicação e respeito para passar adiante as “mirongas” do jongo e os fundamentos dos seus pontos.
Eram poetas-feticeiros que se desafiam nas rodas de jongo para disputar sabedoria. Buscavam por meios da poesia do ponto enfeitiçar o outro. Aquele que recebesse um ponto tinha que decifrá-lo e “desatar”, caso contrario ficava enfeitiçado, dizem que alguns perdiam a voz, desmaiava, chegando até mesmo morrer
Hoje em dia não chegamos a tanto, mas ainda existe alguns lugares, como o Quilombo São José (160km do Rio de Janeiro) que ainda mantém vivo nossas raízes negras, e garanto, ninguém morre por conta disso.
Texto roubado , autor desconhecido .

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